Perfil
Quarto disco dos Detonautas, "O Retorno de Saturno" traz a marca do amadurecimento da banda. Seja no lirismo ou na crueza das letras, todas de autoria de Tico Santa Cruz, seja na sonoridade complexa de um instrumental que jamais busca soluções fáceis, tudo aponta para o salto musical do grupo, uma evolução prenunciada em Psicodeliaamorsexo&distorção, o álbum anterior.
A faixa-título, a primeira do disco, mostra bem o domínio que os rapazes adquiriram, por exemplo, na arte de produzir hits. Em meio a um arranjo de guitarras superpostas, eles iniciam o refrão com um verso que parece comentar o efeito devastador que a música vai provocar: "Você não sai do meu pensamento...". Nada mais apropriado em uma canção pronta para ganhar a mente à primeira audição.
Com outro refrão poderoso, "Nada é Sempre Igual" tem batida e letra que parecem saídas da melhor lavra dos bons tempos da Legião Urbana. A propósito, nesse processo de evolução musical, as letras de Tico parecem ter adquirido um parentesco formal com a obra de Renato Russo, principalmente nas canções que escreve sobre o amor, em suas diversas modalidades, como na filosófica e tocante "Oração do Horizonte", em que saúda "o amor como a única revolução verdadeira" e canta: "E onde o amor for infinito que eu encontre o meu lugar/ E que o silêncio da saudade não me impeça de cantar/ Talvez você me encontre por aí/ Quem sabe a gente possa descobrir no amor/ Sonhos iguais/ Noites de luz/ Que os dias de paz/ Estão em nós".
As influências, porém, não apagam a inconfundível assinatura, nunca piegas, do Detonautas Roque Clube. Em "Só Pelo Bem Querer", por exemplo, o amor é apresentado de uma maneira original e existencialista: "O amor é o desejo de encontrar alguém que viva sinceramente a liberdade de amar alguém só pelo bem querer". Nem mesmo a comoção que cerca a bela "Verdades do Mundo", em que Tico dialoga com o amigo e ex-companheiro da banda Rodrigo Netto, morto na guerra urbana do Rio de Janeiro, leva o grupo a fazer qualquer concessão sentimentalista.
Se a produção aposta em hits em alguns momentos, aposta também em canções mais difíceis de o mercado assimilar. É o caso de "Ensaio Sobre a Cegueira", que, em meio aos seus aproximadamente oito minutos de duração, um tempo fora dos padrões comerciais das emissoras, abre espaço para o poeta Edu Planchêz recitar a porrada que é a sua poesia "Filhos da Morte Burra", emoldurada pelo soturno e reflexivo ensaio dos Detonautas.
O ativismo político e social que também se tornaram uma marca do grupo não ficou de fora do disco. Em duas faixas, a classe política brasileira sai impiedosamente ridicularizada. "Enquanto houver" é mais direta ("Meu amor/ Enquanto isso no Congresso/ Eles roubam o país"). Já "Eu Vou Vomitar em Você" é cáustica a ponto de escrachar no título e ao longo da canção, com o apropriado refrão dos Titãs, de "Aa Uu", citado incidentalmente.
Outra pérola do repertório é "Soldados de Chumbo", cujo desfecho é a chave para se compreender a sutil e inteligente ironia da letra. "Lógica" é mais uma canção de amor, que nada tem de cartesiana, mas apresenta uma deliciosa viagem sonora, cheia de romantismo. Por fim, o instrumental e o arranjo vocal se destacam em "Tanto faz", mais uma séria candidata a hit, com seu refrão bem executado.
O repertório, o talento e a inventividade da banda composta por Fábio Brasil (bateria), Tchello (baixo) DJ Cleston (percussão, scratches e efeitos), Renato Rocha (violão e guitarras) e Tico Santa Cruz (violão e vocais), somados aos acertos da produção (banda, Tomás Magno e Fernando Magalhães, do Barão), fazem prever que "O Retorno de Saturno" terá uma longa e marcante carreira nas rádios, nos palcos e na história dos Detonautas.
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