Rock
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Nenê Altro. Figura carimbadissima na cena punk (rock) paulistana, Fábio Luiz Altro encarnou completamente seu personagem e a midia o transformou.
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VIDA DESREGRADA - POR WLADIMYR CRUZ
Lembro-me bem que na época da faculdade tive de fazer um trabalho, não me recordo para qual disciplina, que tratava sobre como a midia cria um mito. Todo o circo criado em cima de uma pessoa pode transforma-la em celebridade, manchetes, fofocas, boatos e fatos fazem de qualquer um, uma grande estrela. Isso pode inclusive ser visto de forma bastante explicita no filme Natural Born Killers de Oliver Stone. "A midia os transformou em superstars". 2005, Brasil, e assim criou-se o mito por trás de um nome: Nenê Altro. Figura carimbadissima na cena punk (rock) paulistana, Fábio Luiz Altro encarnou completamente seu personagem e a midia o transformou. Numa cena controlada por fotologs, orkuts e quetais, não foi preciso sensacionalismo em jornais e revistas, o público é a midia, e ela o criou.Chamado de pedófilo, anticristo (sim, é sério!), poeta, gênio, viado, deus e tudo mais que possa enaltecer ou denegrir sua imagem, Nenê Altro caminha por entre os escombros e mantém sua jornada rumo ao caos estrelado.Através de suas letras fortes, já fora aclamado como um novo Renato Russo; através de sua performance, um Iggy Pop, por suas baixarias, um Sid Vicious frustrado, sempre acompanhado de suas Nancys, peça chave na maioria de suas histórias de baixarias na noite cool de São Paulo.O marketing é a alma do negócio, tudo se compra e se vende, inclusive histórias e estórias fantásticas sobre a vida de um "simples" cidadão paulistano de 36 anos. Nem tudo é verdade, quase nada é mentira, mas com certeza, tudo é divertidissimo, principalmente pra quem está de fora e conhece os personagens.Uma vida desregrada e repleta de batalhas fizeram com que a personalidade e integridade de nosso personagem fosse questionada pelos patrulhadores. É comum até ouvir por ai comentários sobre as inumeras "mutações" que o Nenê sofreu no decorrer dos anos, mas poucos enxergam que todas elas partem de um mesmo principio: a liberdade.Desde sua época punk, passando pela fase (a)politica, straight-edge etc, a liberdade sempre foi uma peça fundamental na estrutura de seu pensamento e atitudes. A regra número um do ser humano levada ao seu extremo, incluindo ai a liberdade de mudar, seja de visual, de opinião ou de filosofia de vida.Essas mudanças geraram ódio (e até inveja, por que não?) de vários. Bom pra nós, que temos histórias fantásticas de engraçadas, recheadas de briguinhas no palco, escolta policial, expulsões de casas noturnas e muito mais.Se por um lado todo esse mundo fantástico de Nenê Altro ofende alguns, magnetiza uma legião. "Urbana Legio Omnia Vincit", já estava escrito por ai. A devoção quase beatlemaniaca em cima do nosso amigo é brutal. Adolescentes (e adultos) chorando, uma catarse inexplicavél (carência talvez?), uma devoção quase religiosa em cima de alguém que, na verdade, eles não conhecem a fundo, uma identificação em cima de palavras que a maioria infelizmente não entende, mas que faz sua própria interpretação e levam isso para a vida. Palavras de ordem e gritos de desespero ecoam pelos quatro cantos do país quando nossa figura surge nos palcos, algo completamente comparavél à histeria dos jovens nos anos 80 quando o já citado Renato Russo surgia em cena.Um poeta? Um charlatão? Quem se importa? A verdade é que é impossivel não se impressionar com as reações das pessoas com sua presença. Toda sociedade carrega consigo um punhado de dogmas abstratos, e ai daquele que não se encaixa. A força de vontade de ir além, de enxergar através, de arriscar, fez nascer o que se enquadra como subversão, e o filho bastardo mais pródigo desse sentimento é o rock´n´roll.Nos quatro cantos do planeta, enfrentar o pré-estabelecido é visto com má impressão, e até certo desdém. "Logo passa" eles dizem, mas O problema é quando isso vira um estilo de vida, um anti-ideal. O Nenê, sabe muito bem o que é isso. Numa época de covardes, molecada bunda-mole, é uma glória termos aquele que causa a discórdia, aquele que afronta, que cospe na cara e mostra que é matar ou morrer nessa vida.Acredito que esta sinceridade, esta carne exposta, tal qual nomes como Bukowski, Iggy Pop, Bowie ou mesmo Mickey e Mallory Knox mostraram no decorrer da história, seja necessária. Alguém precisa ser real, alguém tem de sangrar e fazer os outros sangrarem. Neste quesito, Altro está bem cotado. Jamais passa desapercebido, "falem mal, mas falem de mim", ame ou odeie, você sabe que ele existe, e ele incomoda, ele te faz sentir algo, seja o que for. Isso é preciso. É preciso se sentir vivo. É preciso querer matar alguém.Toda história tem seu mocinho e seu vilão. Adivinha em qual ele se orgulha de se encaixar melhor? Entre uma história e outra, uma bebedeira e uma briga, sempre vem a vitória (ou coisa que o valha), e assim segue o legado desse mito, criado por suas próprias atitudes, enaltecido por uma legião, odiado por uma multidão e conhecido por todos. Tenho orgulho por essa figura ímpar ser meu amigo, parceiro e sei lá mais o que. Muitas bebidas virão, muitas mulheres passarão e muitas brigas enfrentaremos, e confesso que sempre estarei ao seu lado, fazendo-o soltar seu Tyler Durden pessoal com o intuito de chacoalhar com o bom mocismo porco que reina em nosso meio.
Wladimyr Cruz é jornalista e dono do site www.zonapunk.com.br
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